segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O primeiro samba, gravado à 100 anos: "Pelo telefone", de Donga




"Pelo telefone" é considerado o primeiro samba a ser gravado no Brasil, segundo a maioria dos autores, a partir dos registros existentes na Biblioteca Nacional.


Donga


Composição de Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e do jornalista Mauro de Almeida. Foi registrada em 27 de novembro de 1916 como sendo de autoria apenas de Donga, que mais tarde incluiu Mauro como parceiro. 



Donga e Mauro de Almeida à frente.


A canção foi concebida em um famoso terreiro de candomblé daqueles tempos, a casa da Tia Ciata, frequentada por grandes músicos da época. Por ter sido um grande sucesso e devido ao fato de ter nascido em uma roda de samba, de improvisações e criações conjuntas, vários foram os músicos que reivindicaram a autoria da composição.

"Pelo telefone" composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Praça Onze. A melodia, originalmente, intitulava-se Roceiro e foi uma criação coletiva, com participação de João da BaianaPixinguinhaCaninhaHilário Jovino Ferreira e Sinhô, entre outros.





A gravação foi feita pela Casa Edison, com o selo Odeon Records, em disco de vinil de 78 RPM(rotações por minuto), os famosos "bolachões"






A canção "Pelo telefone" é considerado um marco na história da Música Brasileira visto que e a primeira vez que a palavra "samba" aparece no selo de um disco de vinil, caracterizando assim um estilo musical.  Existem muitas controvérsias e discussões entre historiadores da música quanto à sua data de lançamento, 1916 ou 1917, e se realmente este foi o primeiro samba gravado no Brasil... enfim, fora desta discussão e sem nenhuma pretensão acadêmica, eu prefiro ficar com as informações dos registros da Biblioteca Nacional.

Há também alguma controvérsia em relação à letra original da canção "Pelo telefone", onde alguns historiadores afirmam que no carnaval de 1917, o samba foi às ruas com letra atribuída ao jornalista Mauro de Almeida,  e o primeiro verso era cantado de duas maneiras:

O chefe da folia

Pelo telefone

Manda-me avisar

Que com alegria

Não se questione

Para se brincar.
Ou:
O Chefe da Polícia

Pelo telefone

Manda-me avisar

Que na Carioca

Tem uma roleta

Para se jogar.



Donga, em depoimento no Museu da Imagem e do Som, diz que a letra original é o Chefe da Folia… e explica: O Chefe da Polícia… foi uma paródia feita pelos jornalistas do jornal A Noite, que em 1913 teriam colocado uma roleta de jogos no Largo da Carioca, para com isso mostrar que o Chefe de Polícia fazia vista grossa à jogatina. Já em entrevista a Sérgio Cabral e Ary Vasconcelos, porém, Donga se contradiz afirmando que é O Chefe da Polícia… a letra inicial, mudada para O Chefe da folia… para evitar complicações com as autoridades.

Entre tantos músicos que regravaram "Pelo telefone" está Martinho da Vila, que fez grande sucesso com a canção no início de sua carreira.



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Donga, ainda jovem



Ernesto Joaquim Maria dos Santos, conhecido como Donga, nasceu no Rio de Janeiro5 de abril de 1890 e faleceu também no Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 1974, era oficial de justiça do estado, e foi um conhecido músicocompositor e violinista brasileiro.

Seu pai, Pedro, era pedreiro e tocava bombardino, um instrumento de sopro da família das saxotrompas, e sua mãe era a famosa Tia Amélia, do grupo das baianas da Cidade Nova.

Donga participava das rodas de música na casa da lendária Tia Ciata, ao lado de João da Baiana, Pixinguinha e outros. Grande fã de Mário Cavaquinho, começou a tocar este instrumento de ouvido, aos 14 anos de idade. Pouco depois aprendeu a tocar violão, estudando com o grande Quincas Laranjeiras
Organizou com Pixinguinha a Orquestra Típica Donga-Pixinguinha. Em 1919, ao lado de Pixinguinha e outros seis músicos, integrou, como violonista, o grupo Oito Batutas, que excursionou pela Europa em 1922.

Os Oito Batutas

Em 1926 integrou a banda Carlito Jazz. Em 1940 Donga gravou nove composições (entre sambas, toadas, macumbas e lundus) do disco Native Brazilian Music, organizado por dois maestros: o norte-americano Leopold Stokowski e o brasileiro Villa-Lobos, lançado nos Estados Unidos pela Columbia.
No final dos anos 50 voltou a se apresentar com o grupo Velha Guarda, em shows organizados por Almirante. Enviuvou em 1951, casou-se novamente em 1953 e foi morar no bairro de Aldeia Campista, para onde se retirara como oficial de justiça aposentado. Doente e quase cego, viveu seus últimos dias no Retiro dos Artistas, falecendo em 1974.  



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Mauro de Almeida


Mauro de Almeida, nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de janeiro de 1882 e faleceu também no Rio de Janeiro, em 19 de julho de 1956, foi teatrólogo, jornalista e compositor brasileiro.
Começou a carreira de jornalista na redação de A Folha do Dia, do Rio de Janeiro, como repórter policial e cronista carnavalesco.
Como compositor, entrou para a história da música popular brasileira por ter escrito em coautoria com Donga a letra de "Pelo Telefone", oficialmente o primeiro samba gravado. Em 1918 compôs com Pixinguinha e Donga o samba "O malhador", que foi interpretado por Baiano e gravado na gravadora Odeon.
Escreveu diversas peças de teatro, entre as quais Presidente antes de nascer, Adeus, Não lhe pague, Amor e modas, Viúva alegre, Com a corda no pescoço, Desarvorada do amor, Do cruzeiro ao cruzeiro, Cozinheira granfina, Decadência e Sempre chorada, algumas feitas em parceria com Luís Rocha e Cardoso de Meneses.
Foi sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), em 1917.


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Baiano


Manuel Pedro dos Santos, mais conhecido por seu nome artístico, Baiano, nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 05 de dezembro de 1870, e faleceu no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1944. 

Foi um cantor brasileiro reconhecido pelo seu pioneirismo dentre as gravações fonográficas na Casa Edison, uma das primeiras gravadoras existentes no país, com o lundu de Xisto Bahia, "Isto é bom", primeiro disco para gramofone gravado no Brasil.



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Tia Ciata


Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1854, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1924, foi cozinheira e mãe de santo brasileira, considerada por muitos como uma das figuras influentes para o surgimento do samba carioca. 
Foi iniciada no candomblé em Salvador por Bangboshê Obitikô, era filha de Oxum. No Rio de Janeiro era Iyakekerê na casa de João Alabá. Também ficou marcada como uma das principais animadoras da cultura negra nas nascentes favelas cariocas. Ela era a dona de uma casa onde se reuniam sambistas e onde foi criado "Pelo Telefone", o primeiro samba gravado em disco, assinado por Donga e Mauro de Almeida, na voz do cantor Baiano, nascido também em Santo Amaro da Purificação.


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A Casa Edison foi uma das primeiras gravadoras brasileiras, fundada em 1900 por Frederico Figner no Rio de Janeiro. Inicialmente apenas importava e revendia cilindros fonográficos (utilizados nos fonógrafos de Thomas Edison) e discos (utilizados nos gramofones de Emil Berliner), mas, em 1902, lança o que é considerada a primeira música brasileira gravada no país, o lundu "Isto é bom" do compositor Xisto Bahia na voz de Baiano. Anos mais tarde, em 1917, lançaria também o primeiro samba gravado no país, "Pelo Telefone", de autoria de Donga e Mauro de Almeida, executado também por Baiano. 
Desde a fundação, a Casa Edison passa a ser representante da Odeon Records administrando os vários selos que a empresa alemã possuía e, a partir de 1912, também a fábrica que aquela companhia abriu no Rio de Janeiro naquele ano. Em 1926, a gravadora perderia a representação da Odeon e, no ano seguinte, passaria a gravar pelo selo Parlophone até que, em 1932, sairia definitivamente da indústria fonográfica, passando a operar com máquinas de escrevergeladeiras e mimeógrafos até encerrar suas atividades em 1960.


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"Pelo Telefone" - Diogo Nogueira, Martinho da Vila e Nelson Sargento






"Pelo Telefone" - Beth Carvalho e Vó Maria(viúva de Donga)






"Pelo Telefone" - Baiano (gravação original 1917)

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